A cirurgia robótica continua evoluindo. Uma das novidades que mais chamou atenção durante o XIX Congresso Paulista de Urologia, realizado em São Paulo em setembro de 2026, foi o da Vinci 5, quinta geração do sistema de cirurgia robótica desenvolvido pela Intuitive.
Durante o congresso, tive a oportunidade de conhecer a plataforma de perto e acompanhar algumas das principais evoluções incorporadas ao sistema.
Mas, para quem está diante da possibilidade de passar por uma cirurgia, a pergunta mais importante não é simplesmente qual é o robô mais novo.
O que essas mudanças realmente podem representar para o paciente?
O da Vinci 5 incorpora novos recursos de controle, visualização, ergonomia, processamento de dados e até percepção da força aplicada aos tecidos. São avanços importantes para o cirurgião. No entanto, uma plataforma mais moderna, sozinha, não determina o resultado de uma cirurgia.
Antes da tecnologia, continuam vindo o diagnóstico correto, a indicação adequada do procedimento, o planejamento e a experiência da equipe cirúrgica.
O que é o da Vinci 5?
O da Vinci 5 é a quinta geração da plataforma robótica multiportal da Intuitive, empresa responsável pelo desenvolvimento dos sistemas da Vinci.
Apesar de estar sendo apresentado mais recentemente ao mercado brasileiro, ele não foi criado em 2026. A plataforma recebeu sua autorização inicial da FDA, agência regulatória dos Estados Unidos, em março de 2024 e passou por uma introdução gradual.
Segundo a Intuitive, o da Vinci 5 foi desenvolvido a partir da experiência acumulada com o da Vinci Xi e reúne mais de 150 modificações e inovações de projeto.
Entre as mudanças estão:
- tecnologia de percepção de força, chamada Force Feedback;
- novos controles para o cirurgião;
- evolução do sistema de imagem 3D;
- melhorias na ergonomia do console;
- integração de equipamentos utilizados durante a cirurgia;
- maior capacidade de processamento;
- recursos voltados à análise de dados cirúrgicos;
- melhorias no fluxo de trabalho da equipe.
A fabricante informa ainda que a arquitetura computacional do da Vinci 5 possui capacidade de processamento significativamente maior que a geração Xi, criando espaço para incorporar novas ferramentas digitais ao longo da vida útil da plataforma.
Mas algumas dessas mudanças são muito mais relevantes para o cirurgião do que parecem quando observamos apenas a ficha técnica do equipamento.

Force Feedback: o cirurgião pode sentir a força aplicada aos tecidos?
Essa provavelmente é uma das evoluções que mais despertam interesse no da Vinci 5.
Durante décadas, uma característica da cirurgia robótica foi a ausência de uma percepção tátil semelhante àquela encontrada em uma cirurgia aberta.
O cirurgião compensava isso principalmente por meio da visão tridimensional ampliada e da experiência adquirida com a técnica.
O Force Feedback adiciona uma nova camada de informação.
Por meio de instrumentos compatíveis, o sistema consegue medir forças exercidas sobre os tecidos e transmitir ao cirurgião uma percepção dessas forças pelos controles do console.
Em outras palavras, determinados movimentos de empurrar ou puxar realizados pelos instrumentos podem passar a ser percebidos pelo cirurgião.
Isso não significa que o cirurgião passa a “tocar” o tecido exatamente como faria com as mãos em uma cirurgia aberta.
É uma tecnologia de feedback de força mediada pelo sistema.
Para procedimentos realizados próximos a estruturas delicadas, nervos, vasos ou tecidos que precisam ser manipulados cuidadosamente, poder compreender melhor a força exercida pode adicionar informação à tomada de decisão durante o procedimento.
A disponibilidade desse recurso, dos instrumentos compatíveis e das funcionalidades específicas pode variar de acordo com o mercado e as aprovações regulatórias.
Saiba mais: Quem opera na cirurgia robótica é o robô? Entenda como realmente funciona

O sistema de imagem também evoluiu
Uma das bases da cirurgia robótica é permitir que o cirurgião trabalhe com uma visão tridimensional e ampliada do campo operatório.
O da Vinci 5 incorpora uma nova geração do sistema de imagem e processamento visual da Intuitive.
Para o cirurgião, ter uma visão detalhada das estruturas anatômicas pode ser especialmente relevante em operações nas quais alguns milímetros fazem diferença.
Na urologia, isso acontece, por exemplo, durante cirurgias realizadas próximas a vasos, nervos, ureteres e outras estruturas delicadas.
Mas é importante fazer uma distinção:
uma imagem melhor ajuda o cirurgião a enxergar. É o cirurgião quem precisa interpretar o que está vendo e decidir o que fazer.
A tecnologia amplia recursos. Ela não substitui conhecimento anatômico, treinamento e experiência cirúrgica.
Controle, movimentos e ergonomia do cirurgião
Outra evolução do da Vinci 5 está nos próprios controles utilizados pelo cirurgião.
O sistema possui novos mecanismos de controle de movimentos, vibração e tremor, além de uma reformulação do console e de suas possibilidades de ajuste ergonômico.
Ergonomia pode parecer um aspecto distante do paciente, mas cirurgias complexas podem exigir longos períodos de concentração e movimentos extremamente delicados.
Um ambiente de trabalho mais confortável e ajustável pode ajudar o cirurgião a permanecer concentrado durante diferentes etapas do procedimento.
Também existem mudanças destinadas a facilitar o fluxo dentro da sala cirúrgica, com maior integração de recursos que anteriormente poderiam depender de equipamentos separados.
Mais capacidade computacional: por que um robô cirúrgico precisa disso?
Talvez essa seja uma das mudanças menos visíveis externamente, mas potencialmente mais importantes para a evolução futura da plataforma.
Segundo a Intuitive, o da Vinci 5 possui uma arquitetura com cerca de 10 mil vezes mais capacidade computacional que o da Vinci Xi.
Isso não significa que uma cirurgia se torne “10 mil vezes melhor” ou mais precisa.
São coisas completamente diferentes.
Essa capacidade permite que a plataforma processe uma quantidade maior de informações e seja preparada para incorporar novos recursos de software, análise de dados e ferramentas digitais.
Entre as possibilidades estão a análise objetiva de determinados movimentos realizados durante a cirurgia e recursos capazes de fornecer informações para treinamento e aprimoramento dos cirurgiões.
É uma mudança importante porque os robôs cirúrgicos deixam progressivamente de ser apenas sistemas mecânicos controlados pelo médico e passam a integrar também um ecossistema crescente de dados e software.
Na prática, o que o da Vinci 5 pode mudar para o paciente?
Essa é a pergunta central.
Para o paciente, muitas das mudanças não são percebidas diretamente.
Ele não sente a capacidade computacional do robô, a ergonomia do console ou a mudança dos controles.
O possível benefício ocorre de forma indireta.
Tecnologias como melhor visualização, maior controle dos instrumentos e informação sobre a força aplicada aos tecidos podem oferecer ao cirurgião mais recursos para executar determinadas etapas de uma operação.
Isso pode ser particularmente relevante em procedimentos complexos e realizados em espaços anatômicos restritos.
Porém, é importante não transformar possibilidades tecnológicas em promessa de resultado.
Recuperação, complicações, preservação funcional e resultado oncológico dependem de diversos fatores, entre eles:
- tipo da doença;
- estágio do tumor, quando existe câncer;
- anatomia do paciente;
- condições clínicas;
- tipo de cirurgia;
- experiência do cirurgião;
- experiência da equipe;
- estrutura hospitalar;
- planejamento do procedimento;
- características individuais de cada caso.
Por isso, simplesmente perguntar “qual robô será utilizado?” não é suficiente para avaliar a qualidade de uma cirurgia.
O da Vinci 5 já demonstrou resultados melhores que o da Vinci Xi?
Essa pergunta precisa ser respondida com cuidado.
Como o da Vinci 5 é uma plataforma relativamente recente, os estudos comparativos ainda estão aumentando e os resultados de longo prazo continuam sendo avaliados.
Um estudo comparativo envolvendo pacientes submetidos à prostatectomia radical robótica analisou 103 cirurgias realizadas com da Vinci 5 e 101 realizadas com da Vinci Xi.
Os pesquisadores encontraram tempos de console e de operação ligeiramente menores no grupo operado com o da Vinci 5.
Por outro lado, não foram observadas diferenças em tempo de internação, taxa de complicações pós-operatórias ou margens cirúrgicas entre os grupos.
Os próprios autores classificaram os ganhos observados como modestos e destacaram que ainda é necessário avaliar os impactos de longo prazo da nova plataforma.
Esse tipo de resultado ajuda a colocar a tecnologia na perspectiva correta.
O da Vinci 5 representa uma evolução tecnológica relevante, mas ainda não é adequado concluir que utilizar essa plataforma, isoladamente, garante um resultado clínico superior para qualquer paciente.
Novos estudos serão importantes para compreender onde as diferenças tecnológicas se traduzem em benefícios clínicos mais significativos.
Um robô mais moderno significa necessariamente uma cirurgia melhor?
Não necessariamente.
Esse é um dos pontos mais importantes para pacientes que pesquisam sobre cirurgia robótica.
O robô é uma ferramenta utilizada pelo cirurgião.
Mesmo uma plataforma tecnologicamente avançada não decide:
- se o paciente realmente precisa operar;
- qual cirurgia é a mais indicada;
- quais estruturas devem ser preservadas;
- qual margem de segurança é necessária;
- quando uma estratégia diferente deve ser adotada;
- como lidar com alterações anatômicas encontradas durante o procedimento.
Essas decisões continuam sendo médicas.
Por isso, ao avaliar uma cirurgia robótica, é importante considerar não apenas a tecnologia disponível, mas também quem indica, planeja e executa o procedimento.
Como escolher um cirurgião robótico? 7 critérios essenciais antes de uma cirurgia robótica
Em quais cirurgias urológicas a cirurgia robótica pode ser utilizada?
A cirurgia robótica já é utilizada na urologia em diferentes procedimentos.
Entre eles estão, em casos selecionados:
Câncer de próstata
Na prostatectomia radical robótica, a próstata é retirada para tratamento de determinados casos de câncer de próstata localizado ou localmente avançado.
A visão ampliada e a mobilidade dos instrumentos são especialmente úteis porque a próstata está localizada em uma região profunda da pelve e próxima a estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual.
Tumores renais
Em determinados tumores do rim, pode ser possível realizar uma nefrectomia parcial, retirando o tumor e preservando o restante do órgão.
O planejamento depende de fatores como tamanho, localização e complexidade da lesão.
Câncer de bexiga
Em alguns pacientes com câncer de bexiga, a cirurgia robótica pode ser utilizada na realização da cistectomia radical e em determinadas etapas da reconstrução urinária.
Cirurgias reconstrutivas
A plataforma também pode ser utilizada em alguns procedimentos de reconstrução das vias urinárias, dependendo da doença e da anatomia do paciente.
Isso não significa que toda cirurgia urológica deva ser feita com robô.
Há situações em que cirurgia aberta, laparoscopia, tratamentos endoscópicos ou até opções não cirúrgicas podem ser mais apropriados.
A escolha da técnica deve ocorrer depois da avaliação do caso — e não antes dela.

O robô realiza a cirurgia sozinho?
Não.
Apesar do nome “cirurgia robótica”, o sistema da Vinci não toma sozinho as decisões cirúrgicas.
O cirurgião fica sentado no console e controla os instrumentos instalados nos braços do equipamento.
Os movimentos realizados pelas mãos do cirurgião são traduzidos pelo sistema para os instrumentos posicionados dentro do paciente.
Há também uma equipe trabalhando junto ao paciente durante todo o procedimento.
Portanto, mesmo em plataformas mais modernas como o da Vinci 5, o cirurgião continua responsável pelos movimentos e pelas decisões durante a operação.
O que perguntar antes de uma cirurgia robótica?
Quando um paciente recebe indicação cirúrgica, algumas perguntas são mais importantes do que simplesmente descobrir qual geração do robô será utilizada.
Vale perguntar:
A cirurgia é realmente necessária neste momento?
Dependendo da doença, podem existir diferentes estratégias de tratamento.
Por que a abordagem robótica foi indicada para o meu caso?
A tecnologia deve ter uma razão clínica para ser utilizada.
Quais são as alternativas?
Cirurgia aberta, laparoscópica, tratamentos endoscópicos, radioterapia ou acompanhamento podem ser considerados em situações diferentes.
Qual é a experiência da equipe com esse procedimento específico?
Experiência com cirurgia robótica não é apenas experiência com o equipamento. É importante conhecer também o domínio da equipe sobre aquela operação e doença.
Quais resultados e riscos são mais relevantes no meu caso?
As prioridades podem ser diferentes para cada paciente.
Tecnologia importa. Mas a decisão vem primeiro.
Conhecer o da Vinci 5 de perto no Congresso Paulista de Urologia permite observar como a cirurgia robótica continua avançando.
Force Feedback, novos sistemas de controle, maior capacidade computacional, integração de dados e melhorias na visualização mostram uma direção interessante para o futuro da cirurgia.
Para o paciente, porém, é importante manter a tecnologia dentro do contexto correto.
O objetivo não deve ser encontrar o robô mais novo. Deve ser encontrar a estratégia mais adequada para tratar aquela doença naquele paciente.
Quando a cirurgia robótica está indicada, uma plataforma moderna pode ampliar os recursos disponíveis para a equipe.
Mas diagnóstico, indicação, planejamento e experiência permanecem fundamentais.
Antes da tecnologia, vem a decisão médica.
Recebeu indicação de uma cirurgia urológica?
Se você recebeu um diagnóstico ou uma indicação cirúrgica e deseja entender quais opções podem ser consideradas no seu caso, uma avaliação especializada pode ajudar a analisar exames, características da doença e as diferentes possibilidades de tratamento antes da decisão.
Dr. Guilherme Canabrava
Urologista em Belo Horizonte com atuação focada em uro-oncologia, urologia avançada e cirurgia robótica.
CRM/MG 61.887 | RQE 44034

Perguntas frequentes sobre o da Vinci 5
O da Vinci 5 é o robô cirúrgico mais novo da Intuitive?
O da Vinci 5 é a quinta geração e atualmente a plataforma multiportal mais avançada da linha da Vinci da Intuitive. Sua autorização inicial pela FDA ocorreu em março de 2024, e a introdução da plataforma vem ocorrendo gradualmente em diferentes mercados.
Qual a principal diferença do da Vinci 5 para gerações anteriores?
O da Vinci 5 reúne diversas mudanças, incluindo Force Feedback, novos controles para o cirurgião, evolução da imagem 3D, melhorias ergonômicas, maior integração dos equipamentos e uma arquitetura computacional muito mais potente.
O cirurgião consegue sentir os tecidos com o da Vinci 5?
A tecnologia Force Feedback permite que instrumentos compatíveis meçam determinadas forças aplicadas aos tecidos e transmitam essa percepção ao cirurgião pelos controles. Não é exatamente a mesma sensação do toque direto com as mãos, mas adiciona uma nova informação durante a cirurgia.
O da Vinci 5 é melhor que o da Vinci Xi?
O da Vinci 5 incorpora novas tecnologias e recursos em relação ao Xi. Entretanto, isso não significa que todo paciente terá necessariamente resultados clínicos melhores apenas por utilizar a plataforma mais nova. Estudos comparativos ainda estão em desenvolvimento, e indicação, experiência da equipe e características do paciente continuam sendo determinantes.
O da Vinci 5 garante recuperação mais rápida?
Não. Nenhuma plataforma robótica pode garantir recuperação mais rápida ou ausência de complicações. A recuperação depende do procedimento realizado, doença, condições clínicas do paciente, técnica utilizada e diversos outros fatores.
O da Vinci 5 já está no Brasil?
A plataforma foi apresentada ao mercado médico brasileiro em 2026 e esteve presente no XIX Congresso Paulista de Urologia. A Strattner, distribuidora dos sistemas da Vinci no Brasil, já lista o Sistema Cirúrgico Robótico da Vinci 5 sob registro Anvisa nº 81166920003. A disponibilidade do equipamento e de funcionalidades específicas deve ser verificada em cada instituição.
O da Vinci 5 realiza a cirurgia sozinho?
Não. O cirurgião controla os instrumentos através do console durante todo o procedimento. O sistema traduz os movimentos realizados pelo médico para os braços robóticos, mas não decide autonomamente como a cirurgia será realizada.
Toda cirurgia urológica pode ser feita com robô?
Não. A indicação depende da doença, anatomia, objetivo do tratamento, condições clínicas e experiência da equipe. Em alguns pacientes, outras técnicas podem ser mais apropriadas.




